sábado, 2 de julho de 2016

Réplicas ou Burando, eis a questão

Dream of Lolita, o famigerado sugary carnival réplica
Um debate que acredito não estar amadurecido o suficiente na comunidade brasileira (amadurecido no sentido das pessoas terem argumentos pra defender ou criticar) é o que concerne às réplicas.
Já avisando que não vou aceitar treta aqui nos comentários, mesmo porque minha posição sobre esse assunto é bem em cima do muro, então não estou atacando ninguém e nem estou dando espaço para receber ataques. Pois bem. Nesse post vou dar argumentos pra ambos os lados - defesa e ataque. Cabe a você decidir em que lado da treta você irá permanecer, agora munida (o) de bons argumentos pra tretar como gente grande.

Desde que me entendo por lolita, esse assunto é um tanto quanto problemático. Basta ver as blogueiras gringas que na decada de 2000 pra frente nos incentivavam a economizar comprando réplicas na Body Line e que hoje defendem ferrenhamente a propriedade intelectual. Não é fácil se posicionar sobre elas, as temidas e amadas réplicas. Mas podemos fazer um esforço.

Por que as réplicas são ruins / más / o demônio (lol) ? E por que isso é tão subjetivo ao mesmo tempo que é objetivo?

Uma das definições para réplica, segundo o dicionário Michaelis é "reprodução de uma obra artística; cópia, imitação." Ou seja, a réplica é um tipo de pirataria, já que copia uma obra artística - no caso estampas - de uma marca e não lhe paga os referidos direitos, ou traduzindo mais ainda, é roubo. As réplicas das roupas de marca vendem mais barato, mas além de terem muitas vezes material de qualidade inferior (muitas vezes = nem sempre, veja o caso dos sapatos), em todos os casos ninguém teve de se esforçar para fazer a estampa/design - no caso, desenhar. Foi apenas copiado, e muitas vezes muito mal copiado. Em outra mão você tem as designers das brands, que tiveram de estudar muito, ralar muito, as vezes noites em claro, para elaborar um design. Se você estuda/estudou, sabe como é um parto pra elaborar um texto; Mais ainda, imagine, um design (design no caso, da estampa). Não é fácil. Você não abre o Corel / Photoshop e o negócio tá pronto. Você não demorou horas pra escolher/desenhar rendas, acessórios, costurar, forros, fazer o controle de qualidade, para depois vir alguém e pá, roubar seu tão trabalhoso design.

Para quem acha que as marcas não ligam, haha, está redondamente enganado. 
"Atualização de regras da EGL - política de réplicas ilegais
Olá a todos!
Em junho, fomos contatados por um representante da Angelic Pretty. O representante expressou a preocupação deles sobre o fato que réplicas ilegais estavam ferindo seus negócios, e pediu por nossa ajuda para abordar a questão. Em meados de junho, eles formalmente pediram que nós baníssemos réplicas ilegais da egl e egl_comm_sales. Você pode ler o anúncio original aqui. Desde então, nós estivemos trabalhando com eles para elaborar uma política oficial sobre réplicas na egl e suas comunidades irmãs.
Em adição a esse banimento,  Angelic Pretty, Mary Magdalene e Innocent World tiveram todas se pronunciado contra réplicas. [...]
(Isso foi em 2012)
Op floral da Angelic Pretty

Por outro lado, devemos levar em conta o contexto local. Vou tomar como local o Brasil. Em primeiro lugar, vamos levar em conta nosso contexto social e econômico, além de nossa condição perante as gringas: estamos em um contexto político um tanto quanto conturbado, com nossa moeda bem desvalorizada, oscilando brutalmente a cada decisão política; Grande parte, não digo só das meninas, mas do povo brasileiro, não recebe salários muito altos, e como tudo é muito caro, não tem condições de gastar em algo supérfluo o dinheiro de mercado/ faculdade/contas, etc;  uma alfândega que funciona como uma terra sem lei, taxando em 60% ou mais quase tudo o que entra lá, mesmo que esteja abaixo de 50 dólares; Uma empresa de correio que já não é um modelo de empresa como foi tida por muitos no passado, com serviços bem a desejar (isso quando não perde o pacote, insira grito aqui), além de uma dificuldade de acesso a cartões internacionais maior em relação às gringas, muitas vezes sujeito a altas taxas das operações. Além disso, as próprias brands não tem interesse no mercado brasileiro, porque não é toda lolita brasileira que consegue driblar esses problemas que eu citei acima e comprar direto da loja - e posso compartilhar a experiência de comprar direito da Baby, precisar de Shopping Service e cartão alheio pra pagar no final uma taxa de quase o valor do maldito Usakumya - ou seja, quase que paguei dois usakumyas em uma compra só (que não é baratinho não), coisa que não acontece com as gringas. Em muitos dos casos estamos comprando brand usada de terceiros ou mesmo de lojas de second hand japonesas, através de Shopping services e pagando mais taxas. Os grandes eventos como vemos na Europa, com participação de grandes brands e designers, são inexistentes no Brasil - ainda que em nossos vizinhos tenham havido eventos com personalidades como Misako Aoki, enquanto aqui esta nunca mais retornou depois de 2009.
Foto do meu Crown Label da Metamorphose.


Em um post do F Yeah lolita, li algo muito interessante, algo mais ou menos traduzido por "se considerar pró réplica é apoiar uma prática que é, francamente, anti-lolita", no sentido de apoiar uma prática que rouba designs das grandes marcas e ao mesmo tempo não apoia os pequenos designers que normalmente são lolitas que fazem roupas para lolitas. Francamente, indo ao ponto, réplica é roubo sim, porém você vai jogar isso na cara do povo brasileiro? Um povo que é roubado todos os dias na quantidade de impostos que paga, e que quando resolve ter um hobbie (porque pasmem, a vida não é só trabalho), o governo consegue montar em cima e arrancar seu dinheiro suado.
Cinderella Jewelry, faz tempo que não uso...

No contexto das gringas, o debate das réplicas normalmente tem maioria ferrenha defendendo que elas não devem ser compradas. Além disso, quando revendem roupas, mesmo que seja brand, muitas gringas não marcam os pacotes como presente e muito menos mentem o valor da peça para menos na hora de declarar, simplesmente porque na mente delas tem que ser feito tudo legalmente e como manda o figurino. Você encontra debates enormes simplesmente pelo fato da pessoa omitir em alguma comunidade, que está usando réplica. Essa questão moral é muito presente no exterior. De maneira nenhuma dizendo que as brasileiras não tenham moral, mas aqui o negócio é bem diferente. Não temos acesso fácil a esses itens originais para começar (questão de modelo desejado / dream dress / preço / cartão/ whatever). E além de elencar de novo, tuuuuudo aquilo que disse ali em cima, com o advento do Aliexpress, fica super mais fácil comprar as coisas sem precisar de cartão de crédito. Sem falar que ninguém tem a lolibrary inteira na cabeça pra saber se o que está lá é réplica de alguma brand ou alguma coisa de uma marca independente (isso vale pra qualquer artigo que você acha nesse site). Além do que, temos mais acesso fácil a uma réplica de vestido na sales do que seu original, mesmo que a réplica esteja overpriced, pelo simples fato de não ter que se preocupar com a alfândega.

No meu caso, ao longo dos anos já possuí algumas réplicas de vestidos, saias e sapatos. Ainda possuo dois sapatos réplicas (que logo pretendo substituir pelos modelos das lojas nacionais), uma bolsa que desconfio da procedência e que quero substituir (novamente a questão do não ter o lolibrary de cor na cabeça) mas os vestidos e o resto que possuo são originais. É difícil mesmo acreditar que eu tinha tanta roupa lolita, mas tanta roupa lolita, que ao longo dos anos fui vendendo para comprar brand, e acabei com bem poucas roupas. E brand não é muito barato não, longe disso. Mas é um esforço que no meu caso, frise-se no meu caso achei ser bem válido, pela qualidade e também porque eu costuro e sei bem o trabalho que dá pra fazer uma peça e o tanto que tive de estudar pra ser capaz disso.
Charles Crown da IW

Não estou aqui pra dizer como você vai gastar seu dinheiro. Se você quer réplicas e acha que apesar de todo o levantado, (sem falar que estão overpriced demais com a alta do dólar) elas estão ok para você, vá nessa. Se você quer uma saída às réplicas mas não tem condições de comprar burando, há lojas indie tanto aqui no Brasil como no Taobao, sem falar que estamos bem servidas com duas lojas de sapatos e algumas de bolsas. O que importa mesmo é que esse assunto não gere segregação de qualquer tipo. Reitero o que sempre digo: você não precisa usar brand pra ser lolita e ninguém é melhor do que ninguém baseado em quanto pagou na roupa.

(Todas as fotos são minhas, com exceção da do Sugary Carnival Réplica. Pode usar, desde que dê os créditos)

5 comentários:

  1. Grande parte de mim como estudante de moda se questiona se réplicas são mesmo Satan na terra, aí eu penso, como eu me sentiria se eu eu fizesse sucesso e me copiassem? Ainda não consigo responder essa pergunta, mas aqui alguns fatos no meu dilema:
    - o grande problema nas réplicas n é por que alguém deixa de comprar algo original e compra réplica. Todos queremos ter o produto original. O livro A cidade e a Moda fala bem disso, imitações permitem que pessoas tenham algo igual ao que almejam mas não podem ter, e o grande problema nisso é que as pessoas que podem ter acabam banalizando o que tem por que todos acabam tendo. Tomando sugary carnival da AP como exemplo, é uma print rara, mas quem gosta simplesmente compra uma réplica ao invés de valorizar ainda mais as produções superfaturadas da AP, brand que esgota vestidos em lançamento. Pra mim o papo de que réplica é um pecado lolita só serve pra valorizar ainda mais marcas que já tem um bom público e que já custam caro, só comparar um vestido da AP em 2006 com um de 2016, mesmo com a valorização do yen, os preços estão no alto pois é a marca mais supervalorizada. Réplicas sim, mas prefira valorizar as produções indies.

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    1. Super concordo com sua opinião! Pra mim é um dilema enorme isso, além de ser quase que um tabu falar em réplicas em lolita. Eu fico com um pé atrás com réplicas, principalmente chinesas, porque você não sabe que tipo de trabalho está rolando por trás disso (não se está lá pra ter 100% de certeza). Além disso, tem um geógrafo que sinceramente não gosto muito, mas tem colocações legais sobre isso que vc falou das indie brands, o Milton Santos. Temos basicamente um circuito inferior e superior da economia, e comprando de marcas independentes estamos ajudando a aquecer o circuito inferior e ajudando na economia. Pretendo posteriormente fazer um post sobre isso. Agora que temos lojas de calçados lolita, por exemplo, seria super interessante a gente apoiar elas do que comprar réplicas, pois além de aquecer a economia e ajudar alguém que precisa, estamos boicotando trabalho escravo e evitando pagar taxas para a alfândega.

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  2. Eu acho que muitas vezes o publico que compra replicas não é o mesmo que compra brand, especialmente aqui no Brasil. Então não é algo que prejudique as marcas, uma vez que a pessoa que comprou a replica não teria acesso a brand, não só por causa do dinheiro, mas as vezes pelas medidas. Dito isso, eu ainda acho comprar replicas meio bad, mas não julgo quem tem. Mas eu vejo lolita como um resgate na qualidade dos matérias, assim como as roupas antigamente, e replicas muitas vezes não atende a esse requisito. Além do que, muitas vezes as pessoas mesmo no brasil compram replicas pelo status da print, tipo o sugary carnival (lembro que os reviews diziam que o pano usado para fazer a replica era horrível), mesmo tendo dinheiro para brand (que normalmente tem uma qualidade superior). Particularmente eu nunca gastei mais de 300 reais em um item de brand, o que é praticamente o preço de replicas sendo vendidas no lolita sale brasil. Óbvio que não são todas que tem 300 reais para gastar ou cabem no item. Acho que investir em marcas indie brasileiras seria o ideal para aqueles sem acesso a brand, que era o que eu fazia antes de começar a comprar itens de marca.

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  3. É bem isso que você disse. Nossa, eu lembro quando realmente compensava (em termos de dinheiro) comprar réplicas, quando o dólar estava baixo e um op custaria no máximo 150 reais com frete e bow. Hoje em dia já choro de dar 300 reais em burando, imagina em réplica, haha.

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  4. vamos ser sinceros, usar uma brand é super mega fofo e gratificante, mas é um hobby ou lifestyle bem caro, uma saia da AP que fui pesquisar por SS sairia em torno de 250 já com taxas e tal, mas usar uma replica por sei lá, 130 por ai, sem da os créditos a quem criou é bem chato, agora se for eu fazendo para mim, ai de boas. eu não vejo problema nenhuma, costura quem quer e quem sabe.

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